
Dia Mundial da Bicicleta: especialistas defendem rede contínua, segurança e mobilidade escolar para aumentar uso da bicicleta em Lisboa
A construção de uma rede ciclável contínua, a aposta na mobilidade escolar e a recuperação de espaço urbano atualmente ocupado pelo automóvel foram algumas das principais ideias defendidas durante a conferência que assinalou o Dia Mundial da Bicicleta – Portugal Mobi Summit, no Templo da Poesia, em Oeiras.
O encontro reuniu autarcas, gestores públicos, investigadores e representantes do setor da mobilidade, num momento em que as cidades de Portugal continuam a apresentar uma quota modal da bicicleta muito abaixo das metas traçadas para a mobilidade ativa.
Mobilidade sustentável exige mudança de paradigma
Na sessão de abertura, Isaltino Morais, presidente da Câmara Municipal de Oeiras, destacou a importância de repensar a mobilidade urbana numa perspetiva de sustentabilidade e qualidade de vida, defendendo soluções que permitam reduzir a dependência do automóvel e devolver espaço público às pessoas.
A mensagem serviu de enquadramento para um debate que, ao longo da manhã, procurou responder a uma questão central: o que falta para tornar as cidades verdadeiramente cicláveis?
As 10 estratégias para transformar qualquer cidade numa cidade ciclável
A primeira apresentação esteve a cargo de Adam Tranter, CEO da Fusion Media, que apresentou dez estratégias para aumentar a utilização da bicicleta em contexto urbano.
O especialista britânico começou por desmontar alguns dos argumentos mais frequentemente utilizados para justificar a reduzida utilização da bicicleta nas cidades da Área Metropolitana de Lisboa. A ideia de que a cidade é demasiado inclinada, demasiado quente ou demasiado antiga para favorecer a mobilidade ciclável não convence Adam Tranter.
Segundo o especialista, cerca de 54% do território de Lisboa não se encontra em zonas de colina, enquanto várias cidades europeias demonstram que a reorganização do espaço público pode alterar hábitos de mobilidade.
“Se o carro tiver menos espaço, as pessoas procuram alternativas.”
Entre as principais medidas apresentadas destacam-se:
- Criar uma rede ciclável contínua, sem interrupções ou pontos críticos;
- Garantir cruzamentos seguros, evitando que ciclistas sejam encaminhados para rotundas ou vias hostis;
- Generalizar zonas de circulação a 30 km/h;
- Reduzir o estacionamento automóvel na via pública;
- Criar bairros com acesso condicionado ao tráfego automóvel;
- Utilizar soluções de urbanismo tático para testar novas configurações do espaço público que possam ser reversíveis;
- Reforçar a recolha e divulgação de dados de utilização;
- Mobilizar a opinião pública através de sondagens;
- Dar maior protagonismo ao conhecimento técnico na tomada de decisão.
Adam Tranter defendeu ainda que a segurança das crianças deve funcionar como indicador da qualidade das infraestruturas.
“Se não deixa uma criança de 12 anos deslocar-se sozinha de bicicleta, então ainda há trabalho por fazer.”
“Não queremos fazer ciclovias avulsas. Queremos fazer uma rede”
No painel dedicado às estratégias municipais para a mobilidade ciclável, Mara Duarte, presidente da Parques Tejo, reconheceu que a bicicleta ainda não desempenha um papel estruturante na mobilidade da Área Metropolitana de Lisboa. Apesar disso, a responsável destacou o crescimento da utilização da bicicleta em deslocações de proximidade e na chamada última milha, particularmente na ligação aos transportes públicos, dando como exemplo a ciclovia da Medrosa, utilizada pelos residentes da zona e pelos alunos da NOVA SBE.
Para Mara Duarte, o principal desafio passa pela criação de uma infraestrutura coerente e integrada.
“Não queremos fazer ciclovias avulsas. Queremos fazer uma rede.”
A responsável revelou ainda que existe interesse em colocar a Avenida Marginal sob tutela municipal para permitir uma intervenção mais articulada ao longo daquele corredor.
“Não queremos fazer ciclovias pop-up. Queremos criar uma rede para quem utiliza a bicicleta no dia a dia.”
A mobilidade escolar foi outro dos temas em destaque. Mara Duarte apontou os programas de bike bus como um exemplo de sucesso e considerou que o modelo pode ser adaptado às deslocações pendulares de adultos.
Questionada sobre os motivos que continuam a limitar o crescimento da bicicleta, identificou dois fatores principais: a falta de cultura de utilização e a insuficiência das infraestruturas.
“Estamos a fazer todo o processo de sensibilização, mas também precisamos de criar as condições para que as pessoas possam escolher a bicicleta como meio de transporte.”
A responsável admitiu ainda que as intervenções no espaço público geram inevitavelmente resistência, mas mostrou-se confiante quanto à evolução da mobilidade ciclável nos próximos anos.
No mesmo painel, Carlos Silva, presidente da EMEL, destacou o crescimento da utilização da bicicleta partilhada em Lisboa, considerando que o sistema Gira tem desempenhado um papel importante na mudança de hábitos de mobilidade e anunciou ainda um investimento futuro para cobrir as zonas com menos oferta.
Segundo o responsável, a utilização da bicicleta privada continua a ser reduzida quando comparada com a bicicleta partilhada, sendo a eletrificação um dos fatores com maior potencial para aumentar a adesão. Carlos Silva salientou ainda a importância da integração da Gira no passe Navegante e revelou que as receitas do estacionamento automóvel financiam atualmente o sistema. Entre os desafios identificados, apontou a necessidade de reforçar a interoperabilidade entre municípios da Área Metropolitana de Lisboa e criticou a morosidade dos processos administrativos, referindo que o licenciamento de uma estação de bike sharing pode demorar até dois anos e meio.
Os dados mostram que o potencial existe
A importância da evidência científica para apoiar decisões públicas foi o tema da apresentação de Rosa Félix, investigadora do Instituto Superior Técnico.
Os números apresentados ajudam a perceber a dimensão da oportunidade:
- 64% das viagens realizadas em Oeiras e Lisboa têm menos de cinco quilómetros;
- Metade dos alunos do ensino básico continua a deslocar-se para a escola de automóvel.
Para Rosa Félix, a transformação da mobilidade urbana passa inevitavelmente pela mobilidade escolar.
“A mobilidade escolar tem de se libertar do carro para haver mudança na mobilidade urbana.”
A investigadora defendeu uma abordagem centrada nos potenciais utilizadores da bicicleta, identificando necessidades e barreiras antes de esperar mudanças de comportamento.
Recorrendo à analogia da pirâmide de Maslow, explicou que é impossível alcançar uma mudança modal significativa sem garantir condições básicas como:
- Redes cicláveis contínuas;
- Estacionamento seguro para bicicletas;
- Infraestruturas de apoio e carregamento;
- Integração com os transportes públicos;
- Programas de incentivo como os bike bus e iniciativas bike-to-work.
Rosa Félix recordou ainda que várias metas previstas na Estratégia Nacional para a Mobilidade Ativa Ciclável ficaram por cumprir e apresentou o biclaR, uma ferramenta criada para apoiar a priorização de investimentos em infraestrutura ciclável, acessível a todos os cidadãos.
Investir na bicicleta gera retorno económico
A conferência terminou com uma reflexão sobre o impacto económico da mobilidade ciclável, protagonizada por David Macário, secretário-geral da ABIMOTA, Rita Castel’Branco, da MUBI Lisboa, e Paulo Sergio Pinto Rodrigues, da IP Património, responsável pelo projeto Ecopistas.
Os intervenientes defenderam que a bicicleta deve ser encarada como um investimento estratégico e não apenas como uma medida ambiental.
David Macário, que representa os produtores de veículos de duas rodas, mostrou como a indústria em Portugal tem um peso significativo nas exportações, com mais de 700 milhões de euros em 2025. Este ano as perspectivas são de crescimento.
Rita Castel’Branco recordou que Portugal continua entre os países europeus que mais suportam os custos associados às externalidades negativas do atual sistema de transportes, incluindo congestionamento, poluição e impactos na saúde pública.
“Investir a sério numa rede ciclável é um investimento com retorno.”
A especialista destacou que poucas políticas públicas comunicam tão eficazmente os seus benefícios como a transformação do espaço urbano num espaço mais amigo de quem se desloca a pé e de bicicleta.
O potencial turístico de uma rede de ciclovias foi abordado pelo representante da IP que defendeu ainda que muitas ecopistas são utilizadas também pelos residentes locais nas suas deslocações pendulares.
Para os especialistas, a melhoria das condições para caminhar e pedalar não beneficia apenas os utilizadores destes modos de transporte, mas toda a cidade, incluindo quem continua a utilizar automóvel.
Dia Mundial da Bicicleta reforça debate sobre o futuro da mobilidade
A mensagem que atravessou toda a conferência foi clara: o desafio não é apenas aumentar o número de bicicletas nas ruas, mas criar cidades onde caminhar, pedalar e utilizar transportes públicos sejam escolhas simples, seguras e convenientes.
Num contexto em que a maioria das deslocações urbanas continua a ser realizada de automóvel, os participantes defenderam que a mudança exige planeamento, investimento e continuidade política. Mas também deixaram uma nota de otimismo: a transformação da mobilidade já está em curso e será visível nos próximos anos.
Juntos Movemos Oeiras!
03/06/2026
